A audição não é apenas ouvir.
Ela é interpretar, antecipar e preencher vazios.
Diferente do que muita gente imagina, nossos ouvidos não funcionam como microfones que registram o mundo de forma neutra. O som entra, sim, como vibração física, mas o que realmente ouvimos é uma construção do cérebro. A audição acontece tanto fora quanto dentro da cabeça.
Antes mesmo de um som existir, o cérebro já está esperando por ele.
Esse processo se chama expectativa sensorial. O cérebro é uma máquina de previsões. Ele não reage apenas ao estímulo presente — ele tenta adivinhar o próximo. Quando você anda por uma rua conhecida, por exemplo, já espera certos sons: carros, passos, vozes. Se algo foge desse padrão, sua atenção dispara imediatamente. Não porque o som é mais alto, mas porque ele quebra uma previsão.
Ouvir é comparar o que chega com o que era esperado.
É por isso que o silêncio absoluto é tão perturbador. Quando não há estímulos externos suficientes, o cérebro não “desliga”. Pelo contrário. Ele começa a aumentar o ganho interno, tentando encontrar sinais onde não há. É nesse momento que surge o chamado ruído interno do cérebro.
Esse ruído não é imaginário.
Ele é neural.
O cérebro possui atividade elétrica constante. Neurônios disparam o tempo todo, criando padrões de comunicação interna. Normalmente, os sons externos “organizam” essa atividade, ajudando o cérebro a separar o que é relevante do que é ruído. Quando os estímulos desaparecem, essa organização se perde.
O resultado?
Você começa a ouvir o próprio cérebro funcionando.
Zumbidos, chiados, pulsações, estalos sutis. Sons que não vêm do ambiente, mas do sistema nervoso tentando preencher o vazio. Não porque algo está errado, mas porque o cérebro odeia a ausência total de informação. Para ele, silêncio não é descanso — é incerteza.
A expectativa sensorial intensifica tudo isso.
Quando você espera ouvir algo e não ouve, o cérebro não simplesmente aceita. Ele tenta corrigir a realidade. Cria hipóteses. Amplifica sinais mínimos. Às vezes, até inventa padrões sonoros a partir de ruídos aleatórios. É o mesmo mecanismo que faz alguém “ouvir” seu nome em meio ao barulho ou acreditar que um som distante é uma ameaça.
A audição é profundamente emocional.
O sistema auditivo está ligado diretamente a áreas do cérebro responsáveis por memória e sobrevivência. Sons nunca são neutros. Um ruído pode trazer conforto, alerta ou medo, dependendo do contexto e da expectativa. Um simples estalo no escuro não assusta pelo volume, mas pelo significado que o cérebro atribui a ele.
E esse significado quase nunca é racional.
Quando estamos em ambientes de pressão, isolamento ou escuridão, o cérebro entra em estado de hipervigilância. A expectativa sensorial fica mais rígida. Qualquer variação mínima vira potencial perigo. O ruído interno se mistura com o externo, e a linha entre o que é real e o que é interpretado começa a ficar borrada.
É aí que a audição se torna psicológica.
Não é raro que pessoas em silêncio prolongado relatem sons que parecem vir “de fora”, quando na verdade são projeções internas. O cérebro está tentando manter controle. Tentando criar referências. Tentando sobreviver.
O curioso é que isso acontece com todos nós.
A diferença está no quanto estamos conscientes desse processo. Em ambientes cotidianos, o excesso de estímulos mascara o ruído interno. Música, conversas, trânsito, notificações. Mas quando tudo isso some, sobra apenas o cérebro consigo mesmo.
E ele não é silencioso.
A expectativa sensorial molda até a forma como lembramos sons. Uma gravação nunca soa igual duas vezes para a mesma pessoa, porque o cérebro não é o mesmo. Experiência, estado emocional e contexto alteram completamente a percepção auditiva. O ouvido capta vibrações. A mente cria sentido.
No fim, ouvir não é sobre o mundo.
É sobre a relação entre o mundo e aquilo que esperamos dele.
O ruído interno do cérebro é o lembrete mais claro disso. Mesmo sem som algum, nunca estamos realmente em silêncio. Há sempre atividade, interpretação e antecipação acontecendo. A audição revela algo desconfortável, mas fascinante: a maior parte do que percebemos não vem de fora — vem de dentro.
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